terça-feira , agosto 22 2017
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Nota sobre o falecimento do estudante da USP e militante Bruno Mammoli

Na quarta-feira, dia 26 de julho, recebemos a triste notícia do falecimento do Bruno Mammoli. Bruno viveu a maior parte da sua vida em São José dos Campos e tive o privilégio de o conhecer ainda no Ensino Médio, no início de 2012. Extremamente inteligente já em tenra idade, Bruno foi o primeiro comunista em nosso grupo de amigos; o primeiro a acreditar em um mundo livre das amarras da opressão material e espiritual. Ganhei dele meu primeiro Manifesto do Partido Comunista nos meados de 2012, e passei a acreditar em um mundo melhor: um mundo onde cada um poderia alcançar seu potencial, um mundo onde ele poderia ser um escritor, um poeta, ao invés de trabalhador alienado à própria existência. Foi graças ao brilho em seus olhos, a paixão em seu olhar que também passei a acreditar em um mundo melhor e, naquela cidade pequena do interior de São Paulo, começamos a militar, da nossa forma.

As discussões alcançaram novos níveis quando, em 2013, as Jornadas de Junho se iniciaram. Durante o maior dia das manifestações, nos perdemos, e meu coração se encheu de medo quando descobri que ele estava bem lá na frente, fechando a Via Dutra. Mais para frente, ele foi detido, e levou de mim um belo de um esporro. Mas na verdade, eu estava mesmo é super orgulhosa. Queria ter dito a ele como eu o admirava por ser alguém de coragem e de luta. Bruno já era anarquista quando ingressou no curso de História – o curso que sempre sonhou cursar, e nossas discussões nunca foram tão ricas. Se sou hoje uma trotskista crítica, foi graças a nossas extensas discussões sobre as origens do Bolchevismo e as polêmicas stalinistas. Ele fez de mim não apenas uma militante melhor, mais crítica, disposta a apontar as contradições internas ao partido e à direção; mas também uma pessoa melhor. Uma pessoa que sonha em ter um terço da coragem dele.

No entanto, todos que conheceram o Bruno sabiam que ele, muito mais do que qualquer pessoa, sofria com as contradições e ataques inerentes ao modelo capitalista. Afinal, ele já era um crítico do sistema quando na adolescência, e talvez por ter tamanha sensibilidade, sofreu tanto. Seus discursos eram tão inflamados que eu, jovem, não entendia. Julgava até extremismo. Até esse mundo o tirar da minha história.

É fácil dizer que Bruno estava doente com depressão – uma doença social que mata cada vez mais. O que é difícil é entender que Bruno só morreu porque o mundo que vivemos nunca permitiu que ele fosse o seu máximo, e que ele nadou contra a corrente durante toda a sua vida. Bruno estendeu a mão para cada um de seus camaradas, dando o apoio que sempre precisou. Bruno nos fez acreditar num mundo onde ele poderia viver. Vivemos em um mundo de extrema miséria subjetiva. As relações humanas são mercantilizadas em relações econômicas, assim como a arte, a criação. Não é permitido que uma pessoa criativa, inteligente e corajosa como o Bruno viva, pois a cada dia pessoas como ele são bombardeadas por pressões, normas e caixas as quais ele nunca se encaixou. O que Bruno fez foi lutar para construir um mundo onde ele pudesse viver. E como ele lutou. Lutou muito, construiu na USP o coletivo estudantil Enfrentamento e inclusive participou da gestão do centro acadêmico de seu curso no ano de 2016. Até ouso dizer que se houvessem pelo menos mais alguns Brunos espalhados pelo mundo, já viveríamos na História, e não nessa pré-história de exploração do homem pelo homem.

E o que resta a mim, e a todos que o conheceram e o amaram é dizer seu nome: Bruno. Seguir na luta e dizer seu nome quando a hora chegar, quando cada indivíduo responsável por sua morte for posto em cheque. Quando cada burguês responsável pela alienação em massa dos nossos camaradas trabalhadores, quando cada burguês que destruiu a natureza que ele tanto amou, quando cada burguês que se alimenta como um vampiro do nosso suor e sangue for enfrentado por nós; camaradas revolucionários prontos para irmos até o fim.

Queremos em nome do Esquerda Diário, da juventude Faísca e do MRT enviar toda nossa solidariedade e apoio a todos familiares, amigos e camaradas dele que estão sofrendo com essa perda. Companheiro Bruno Mammoli vive em nossa luta e a única forma de o manter vivo é lutando.

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