A temporada 2026 da Fórmula 1 promoveu uma mudança no regulamento técnico como há muito não se via – e que, desde o começo, tem enfrentado forte resistência de boa parte dos pilotos.
Entre as mudanças, estão a adoção de carros menores, a troca do DRS pelo chamado Modo Ultrapassagem e a utilização de combustível sintético para diminuir a emissão de carbono.
Mas a principal novidade veio do motor, que passou a utilizar menos potência da combustão e a dar mais ênfase na energia elétrica, ampliando a capacidade de recuperação de energia cinética (MGU-K) para recarregar baterias. Tudo para tentar zerar a emissão de carbono até 2030.
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As mudanças drásticas viraram de cabeça para baixo o trabalho das fabricantes. Com problemas, equipes como McLaren, Williams e Aston Martin ficaram fora – de maneira parcial ou total – do shakedown que a F1 organizou em janeiro no Circuito de Barcelona (Espanha). Até os pilotos da Fórmula E foram recrutados para ajudar no desenvolvimento da parte elétrica.
Em fevereiro, durante os testes de pré-temporada no Bahrein, as críticas ganharam corpo. Diante das cobranças, a FIA (Federação Internacional de Automobilismo) anunciou que poderia rever as regras e promover mudanças ao longo da temporada.
Aston Martin x Honda: deu tudo errado

A Aston Martin é quem mais tem sofrido. A equipe foi a que menos andou na pré-temporada (334 voltas em seis dias, média de 55,6 voltas por dia) e chegou a admitir a possibilidade de abandonar o GP da Austrália que abriu o campeonato para evitar problemas.
Adrian Newey, projetista e atual chefe de equipe do time, não poupou de críticas os motores Honda. O problema: a vibração provocada pelos componentes, que afeta a saúde dos pilotos e desestabiliza os carros.
“O motor deste ano é inútil. Eles deveriam começar a trabalhar no motor de 2027. Se soubéssemos da qualidade atual, não teríamos assinado com eles”, disse Newey durante a programação do GP da Austrália. O time é lanterna do Mundial de construtores, ainda sem pontuar, atrás até mesmo da estreante Cadillac.
Verstappen quer ir embora?

Durante todo este período, nenhum piloto tem verbalizado mais críticas que Max Verstappen. Ainda na pré-temporada, o tetracampeão dizia que as novas regras faziam a F1 se parecer com uma “Fórmula E com esteroides”.
Com o início do campeonato, nada mudou: Verstappen já comparou a F1 ao game Mario Kart e deixou clara sua insatisfação com as regras, cogitando até mesmo uma aposentadoria. O holandês da Red Bull tem participado de provas de endurance na Alemanha, e não esconde que tem curtido.
“Pelo menos, você pode pilotar com o pé embaixo sem ficar se preocupando com a bateria”, disse Verstappen, em uma indireta com endereço certo.
Norris mudou de ideia

Lando Norris, que no começo desdenhava das críticas de Verstappen, acabou também se mostrando insatisfeito com o que viu na pista. Campeão da temporada 2025, o britânico da McLaren é apenas o quinto colocado do Mundial de 2026, sem subir ao pódio após as três primeiras provas.
Na pré-temporada, Norris dizia que Verstappen podia se aposentar da F1 se não estivesse satisfeito. “Ele ou qualquer outro piloto não é obrigado a estar aqui. Mas este é um desafio bom e divertido para os engenheiros e pilotos”, afirmou o campeão durante a pré-temporada no Bahrein.
Durante o fim de semana do GP da Austrália, a opinião do britânico já era bem diferente. “Passamos dos melhores carros já construídos na F1, e os mais divertidos de pilotar, para provavelmente os piores. São horríveis”, detonou.
GP do Japão: o divisor de águas?

Conforme prometido no começo do ano, a FIA apresentou mudanças no GP do Japão. Durante a classificação, a capacidade de recarga máxima da bateria permitida foi reduzida, com a intenção de fazer com que os pilotos tivessem que manobrar menos para recarregar durante as voltas, permitindo a cada um acelerar mais. A novidade será avaliada nas próximas semanas.
Mas veio a corrida em Suzuka, e com ela um acidente que os pilotos já temiam. Franco Colapinto (Alpine) vinha a 174 km/h na pista para recarregar a bateria, enquanto Oliver Bearman (Haas) vinha logo atrás a 262 km/h. O britânico precisou desviar, foi para a grama, rodou e bateu forte – um impacto de 50G.
Bearman escapou praticamente ileso da batida, mas a FIA foi obrigada a se mexer. E, mais uma vez, prometeu rever as regras de 2026 em discussões ao longo do mês de abril.
O que dizem os pilotos

A insatisfação no grid é crescente. Principalmente com os novos motores, mas também com a nova aerodinâmica da F1.
“Esses acidentes vão acontecer com frequência com esse conjunto de regulamentos, e precisamos mudar algo logo”, disse Carlos Sainz (Williams) no GP da Espanha.
“Hoje em dia, ultrapassar é acidental (…). É uma manobra evasiva, não uma ultrapassagem”, reforçou Fernando Alonso (Aston Martin).
“Enquanto aprendemos isso, infelizmente coisas assim provavelmente vão acontecer”, concordou Oscar Piastri (McLaren).
E até mesmo os pilotos da Fórmula Indy endossaram as críticas dos colegas da Fórmula 1. “Isso é muito triste. A Indy é melhor que a F1”, comparou Pato O’Ward (Arrow McLaren).
Fonte: Band F1