Em um caso incomum na França, uma mulher matou um lince para defender sua galinha de estimação. O incidente gerou polêmica e foi parar na Justiça
O tribunal criminal de Estrasburgo, no leste da França, analisou nesta sexta-feira (27) o caso da morte de um filhote de lince, espancado por uma mulher em uma cidade no norte da Alsácia, após o animal atacar sua galinha, Marie Thérèse. O lince é uma espécie ameaçada de extinção e protegida no país.
Na manhã de 18 de outubro de 2024, o felino, uma fêmea de 4,2 kg, entrou em um cercado onde viviam cinco galinhas, no jardim de uma área residencial de Niederbronn-les-Bains, uma cidade de 4.000 habitantes. A dona da propriedade conta ter entrado “em pânico” quando viu uma de suas aves, Marie-Thérèse, ser atacada. “Fiquei chocada, gritei, mas ele não soltava. Bati para que soltasse minha galinha”, relatou ao tribunal, onde responde por destruição de uma espécie animal protegida. A mulher afirma que confundiu o lince com um gato.
Após tentar afugentar o predador, a agressora, que diz estar arrependida, pegou um pedaço de madeira e o golpeou na cabeça. Em seguida, chamou a polícia municipal, que acionou o Escritório Francês de Biodiversidade (OFB). Claude Kurtz, especialista em linces e representante do OFB na Alsácia, relatou: “Eu estava a dez minutos dali. Vim ver o que podia ser feito para salvar o filhote que agonizava”. O lince estava debilitado e faminto. “Tentei prestar os primeiros socorros e rapidamente o levei à clínica veterinária”, mas “duas horas depois, ele estava morto”, acrescentou.
Segundo o relatório de autópsia, o felino sofreu “vários golpes”, além de duas fraturas no crânio e um hematoma. Os defensores do lince ainda não haviam escolhido um nome para a filhote, mas conheciam sua linhagem: seus pais, Taïga e Filou, eram da “segunda geração” de linces reintroduzidos na Alemanha entre 2016 e 2021. A mulher e o marido só alertaram as autoridades quando o animal já estava agonizando. “Eles poderiam ter chamado antes”, lamenta Kurtz, que denuncia “atos de crueldade”. Marie-Thérèse, a galinha, não sobreviveu. Mas, segundo Kurtz, se a dona não tivesse atacado o lince, “ela teria sido indenizada pela perda da galinha”.
A espécie está ameaçada de extinção, com apenas cerca de 150 linces em toda a França e dez nas montanhas de Vosges. Nesse contexto, “cada indivíduo conta para a sobrevivência da espécie”, destaca Sandrine Farny, do Parque Natural Regional dos Vosges do Norte. A juíza questionou a mulher: “Você se dá conta de que, ao tentar salvar um animal, acabou matando outro?”. A resposta foi: “Era meu animal doméstico, senhora. Eu gostava da minha galinha, como a senhora gosta do seu gato ou do seu cachorro”.
A promotora, Priscille Cazaux, pediu quatro meses de prisão com suspensão condicional da pena, argumentando que a alegação de confusão com um gato é difícil de acreditar. A advogada da ré, Juliette Isaac, defendeu que a sexagenária simplesmente “reagiu diante da agressão a um ser querido” e tem dificuldades com o luto após a perda de Marie-Thérèse.
Com informações do G1