Em comunidades do RN, a produção artesanal da castanha de caju enfrenta sérios problemas: mãos queimadas pelo líquido corrosivo e trabalho infantil
A castanha de caju, importante fonte de renda para pequenos produtores no semiárido do Rio Grande do Norte, esconde uma realidade desafiadora. Sem equipamentos de proteção adequados, muitos agricultores sofrem queimaduras ao manusear o fruto, e em alguns casos, crianças são submetidas ao trabalho na produção.
No Nordeste, cerca de 195 mil agricultores cultivam caju, sendo que a maioria (mais da metade) são pequenos produtores. A renda gerada pela castanha é crucial, especialmente durante a entressafra de culturas como feijão, milho e algodão.
O Rio Grande do Norte ocupa a terceira posição no ranking de produção de castanha de caju no Brasil, com 20,5 mil toneladas anuais, atrás apenas do Ceará (102 mil toneladas) e do Piauí (25 mil toneladas). Na comunidade indígena Amarelão, em João Câmara, a extração da castanha é feita de forma totalmente artesanal, envolvendo torra, cozimento e quebra manual para obtenção da amêndoa. A comunidade beneficia cerca de 42 toneladas por semana.
Sebastiana de Souza Raimundo e Damião Raimundo, um casal que trabalha com a castanha há décadas, ilustram a força e a resiliência dos produtores locais. Eles começaram a trabalhar com a castanha para sustentar a família, e o fruto lhes permitiu construir uma casa, comprar um carro e garantir o futuro das filhas. “A castanha mudou muito a nossa vida. Conseguimos construir a nossa casinha, compramos um carrinho, criamos as nossas filhas”, diz Sebastiana. As filhas do casal, Kaliane (professora) e Kainara (técnica de enfermagem), não precisaram abandonar a escola graças à renda proporcionada pela castanha.
Apesar do uso atual de luvas, o casal já sofreu diversas queimaduras devido ao Líquido da Casca da Castanha de Caju (LCC), presente no mesocarpo e altamente corrosivo. O LCC pode causar queimaduras, irritações na pele e até mesmo apagar as impressões digitais. A auditora do trabalho Marinalva Dantas alerta para a persistência do trabalho infantil na região. “O trabalho infantil continua, infelizmente. Como é no âmbito familiar, eles trabalham até às 7 horas da manhã, comem e vão para a escola. Lá eles não conseguem entender nada da aula, porque estão muito sonolentos”, relata Dantas. Ela enfatiza a importância de proteger crianças e adolescentes, garantindo que não trabalhem antes dos 18 anos, e a necessidade de apoio governamental às famílias.
Em 2023, 30 adolescentes foram flagrados trabalhando com a castanha e apresentando mãos machucadas. A auditora ressalta que é crucial que as famílias compreendam os riscos do trabalho infantil e que a prefeitura e o governo do estado ofereçam suporte para melhorar as condições de vida dos produtores.
Com informações do G1