A tarifa de Trump e a mentira que esconde o legado de Bolsonaro

Arte: Ilustração feita por IA

Por Olímpio Guarany*

Naveguei da foz do Amazonas até o rio Napo, no Peru, e subi até a cordilheira dos Andes, Equador (2020-2022). Vi a floresta de perto, senti seu cheiro, ouvi seus silêncios. Não escrevo de um gabinete em Brasília ou de uma redação em São Paulo. Escrevo da memória das águas que percorri. E é com essa autoridade que digo: o governo Trump está mentindo sobre a Amazônia.

Uma das justificativas para a tarifa de 25% sobre os produtos brasileiros é ambiental. O documento oficial do Escritório do Representante de Comércio dos EUA repete a palavra “desmatamento” dezenas de vezes. Parece técnica a argumentação. Mas não passa de cinismo geopolítico — e, pior, de um cinismo alimentado com dados do período mais sombrio da nossa história ambiental recente.

Porque os números que Trump usa são os do governo Bolsonaro.

Foi o ex-presidente que, em 2019, herdou uma taxa de desmatamento de 7.500 km² e a transformou em 11.030 km² em 2021 — o pico da devastação dos últimos 15 anos. Foi ele que extinguiu comitês de combate ao desmatamento, que demitiu servidores do Ibama, que incentivou invasores de terra com discursos de ódio contra indígenas e quilombolas. Foi ele que chamou a floresta de “terreno baldio” e disse que “não se deve passar a mão na cabeça de ONG”.

Foto: Fabio Nascimento/Greenpeace

Não foi omissão. Foi projeto de governo. A porteira foi aberta de propósito.

E é exatamente esse período — o auge da destruição — que Trump resgata para justificar sua tarifa. Ele não cita os dados de 2023, 2024 e 2025. Não cita a queda de 30,6% em 2024, nem os 5.796 km² de 2025 — a terceira menor taxa desde 1988. Não cita que, de 2022 para 2025, o desmatamento caiu pela metade.

Por quê? Porque isso atrapalha a narrativa.

Acabo concluindo que Trump não quer proteger a Amazônia. Ele quer proteger o mercado americano. A pauta ambiental é apenas a desculpa para o protecionismo. Os EUA, que se retiraram do Acordo de Paris, que ampliam a exploração de petróleo em terras públicas e que lideram o consumo de combustíveis fósseis per capita, não têm legitimidade para dar lição de moral ambiental a ninguém.

Não tenho procuração para defender o governo brasileiro, mas Lula, que reativou o Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento, retomou o Fundo Amazônia com doações da Noruega e da Alemanha, ampliou a fiscalização em 81% e aplicou mais de R$ 2 bilhões em multas — um aumento de 179% em relação ao período Bolsonaro. Os resultados são visíveis. A curva da devastação, que subia como uma flecha, agora despenca.

O Observatório do Clima já denunciou: a tarifa de Trump é “puramente política”. O secretário-executivo Márcio Astrini foi cirúrgico: “É uma desculpa para impor uma barreira tarifária”.

E eu pergunto: onde estavam os EUA quando Bolsonaro queimava a floresta em plena luz do dia? Onde estavam as tarifas quando o desmatamento batia recordes? Onde estava a preocupação ambiental quando o governo brasileiro sabotava a própria fiscalização?

Não estavam. Porque não se importam com a floresta. Se importassem, estariam hoje reconhecendo o esforço do Brasil, não o punindo.

Conheço a Amazônia. Sei que floresta não é estatística. É território de povos, é água, é biodiversidade, é resistência. E sei também que a responsabilidade ambiental não pode ser usada como moeda de troca em jogos de poder.

O Brasil errou. O governo Bolsonaro errou de forma criminosa, e a floresta sangrou. Mas o Brasil de hoje não é o mesmo. O governo Lula está consertando o que foi quebrado. Os dados mostram. A floresta começa a se recuperar. E a comunidade internacional que realmente se importa com o clima sabe disso.

Trump pode até tentar nos envergonhar com números velhos. Mas a verdade é mais forte: quem abriu a porteira foi Bolsonaro ; quem está fechando é Lula. E quem usa a Amazônia como arma comercial não tem compromisso com ela — tem apenas com seus próprios lucros.

A Amazônia não é pauta de barganha. E eu, que naveguei e continuo navegando seus rios de fio a pavio, não vou permitir que a história seja reescrita por quem nunca pisou na floresta.

Sobre o autor

Olimpio Guarany é jornalista, documentarista e professor universitário. Realizou expedição histórica, navegando o rio Amazonas, desde a foz até o rio Napo (Peru), por onde atingiu o sopé da cordilheira dos Andes (Equador) no período 2020-2022 refazendo a saga de Pedro Teixeira, o conquistador da Amazônia (1637-1639). A expedição deu origem ao livro ‘A Nova Conquista da Amazônia’. É apresentador do programa Amazônia em Pauta no canal Amazon Sat.

*O conteúdo é responsabilidade do colunista

Com informações do Portal Amazônia.

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