Os dias se arrastam para José Carlos Agarito Moreira, de 48 anos. Sentado no terreiro da pequena casa onde vive, em Canaã dos Carajás (PA), ele passa a maior parte do tempo com os pés para cima, esperando o alívio da noite. A dor de cabeça constante, o pus que escorre pela nuca e ouvido, o impedem de trabalhar.
Há três décadas, Zé Carlos foi baleado na Curva do S, em Eldorado do Carajás, durante o maior massacre da história recente do campo brasileiro. Em 17 de abril de 1996, a Polícia Militar abriu fogo contra trabalhadores do MST que protestavam pela reforma agrária. 19 morreram no local, e outros dois dias depois.
A bala, que nunca foi removida, ainda está alojada no olho direito de Zé Carlos, agora substituído por uma prótese. Após 20 anos vivendo da roça como assentado, o agravamento das sequelas o forçou a abandonar a terra. Hoje, ele depende de hemodiálise três vezes por semana e da ajuda dos filhos para sobreviver.

Enquanto isso, a luta por justiça e assistência médica continua. Segundo a associação de sobreviventes, dezenas ainda aguardam indenização e tratamento adequado. O caso de Zé Carlos é um dos mais graves, mas a falta de assistência é generalizada. A Sespa (Secretaria de Estado de Saúde Pública do Pará) aguarda documentos para dar andamento aos pedidos.
O Pará é o estado com mais assassinatos no campo no Brasil, com 1.003 casos registrados entre 1980 e 2024. O massacre de Eldorado do Carajás é um símbolo dessa violência, que continua a afetar a vida de muitos trabalhadores rurais.

Com informações do Portal Amazônia.