Generoso Ponce: Um controvertido herói da Guerra do Paraguai

Generoso Paes Leme de Sousa Ponce. Foto: Acervo pessoal

Por Júlio Olivar – julioolivar@hotmail.com

Nascido em Cuiabá (MT) em 1852, Generoso Paes Leme de Sousa Ponce foi morar ainda bebê nas dependências do Real Forte Príncipe da Beira, no atual estado de Rondônia, à época uma extensão do imenso Mato Grosso. Seu pai, o sargento José Ponce Martins, era o comandante dessa fortaleza icônica edificada no Brasil Colônia.

Com cerca de dez anos, Generoso Ponce voltou à sua terra de origem para estudar no Seminário de Cuiabá. Precoce, aos 13 anos, já era considerado maduro o suficiente para se alistar como voluntário na Guerra do Paraguai. Saiu de lá com o posto de primeiro-sargento cadete e foi considerado um herói de guerra aos 15.

No pós-guerra, Generoso Ponce continuou sua vida como agricultor e, posteriormente, ingressou no jornalismo e no comércio, trabalhando para Firmo José de Mattos, futuro Barão de Casalvasco. Firmo Mattos foi um político e magistrado que influenciaria significativamente a formação de Rondônia.

Generoso Ponce tornou-se um notável na política; foi deputado, presidente do estado e senador. Ele liderou a primeira eleição para a Assembleia Constituinte do Mato Grosso, em 1891, da qual foi presidente. Também comandou o contragolpe de 1892, devolvendo o poder ao presidente Manoel Murtinho, deposto em janeiro por militares ligados ao general Antônio Maria Coelho.

Naquele ano, no início do ciclo republicano no Brasil, uma série de levantes ocorreu. Em Mato Grosso, surgiu um movimento separatista. Generoso Ponce decidiu reagir à tentativa de golpe, mobilizando um exército de centenas de homens que ele batizou como Legião Floriano Peixoto. Em reconhecimento a seu gesto de coragem, o presidente Floriano o nomeou coronel honorário do Exército.

O Assassinato do Governador Totó

Em 1906, Mato Grosso foi palco de mais uma revolta armada. No centro do conflito estavam Generoso Ponce e seu grupo de aliados. A confusão culminou na deposição e assassinato do governador, coronel Antônio Paes de Barros, conhecido como Totó Paes. Aos 55 anos, ele era um dos homens mais influentes e ricos do estado, proprietário de uma próspera usina de açúcar, a Usina de Itaicy, que começou a funcionar em 1897 às margens do Rio Cuiabá e foi o primeiro lugar a ter energia elétrica em todo o Mato Grosso.

No entanto, sua riqueza e poder não o blindaram das acusações sombrias que o perseguiam. Muitas denúncias apontavam que ele realizava torturas nas dependências de sua indústria e lavouras, usando porretes e facões para punir trabalhadores. Uma lista imensa de pessoas escravizadas em pleno Brasil República na usina de Paes de Barros foi divulgada em 1902 na imprensa nacional. A situação se agravava com a conivência de seu genro, que, como chefe de polícia em Cuiabá, era acusado de acobertar crimes de assaltos e assassinatos cometidos por familiares de Paes.

Mesmo assim, o usineiro foi eleito governador. A traição veio de onde menos se esperava: Ponce, um de seus antigos aliados, tornou-se o arquiteto de sua queda. Durante um ataque brutal orquestrado por forças políticas, Totó Paes foi caçado e morto em um esconderijo a cinco quilômetros de Cuiabá.

Em 1907, o próprio Ponce foi eleito governador, restabelecendo o poder da oligarquia local, já que Totó – mesmo com o currículo de escravocrata – representava uma ruptura em relação aos decanos da política local. Ao longo da história, Ponce passou a ser visto como herói, enquanto Totó, que foi morto após ser deposto e não oferecia risco aos revoltosos, teve seu nome esquecido. Todas as homenagens, como nomes de ruas, foram retiradas, e sua família teve que se refugiar no Rio de Janeiro devido às perseguições e ameaças. Até seu corpo foi enterrado fora do cemitério, no mesmo local em que foi morto; posteriormente, seus despojos foram levados para o Rio de Janeiro.

Generoso Ponce
Generoso Ponce: controvérsias. Foto: Acervo pessoal/Júlio Olivar

A morte de Totó Paes ocorreu um ano antes do início da saga da Comissão Rondon e das obras da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. Mas o governador Totó apoiou o Tratado de Petrópolis, que determinou a construção da ferrovia em solo mato-grossense, assinado durante o mandato de seu aliado na presidência da República, Rodrigues Alves.

Em 1908, durante seu governo, Ponce oficializou a criação do município de Santo Antônio do Rio Madeira, que vinha sendo embrionado na administração de Totó Paes. Santo Antônio pode ser considerado o berço do estado de Rondônia, pois foi a primeira cidade dentre todas as que existem no atual estado, além de figurar no Tratado de Petrópolis como o marco inicial da ferrovia que, posteriormente, começou a ser construída à altura do Ponto Velho, origem de Porto Velho.

Desde o início do século XX, já funcionava uma subprefeitura na localidade de Santo Antônio, subordinada a Cuiabá. Além disso, havia uma mesa de rendas e uma cadeia pública desde 1903, e os Correios foram instalados logo depois.
Quanto a Generoso Ponce, ele faleceu em 1911, no Rio de Janeiro, enquanto exercia o cargo de deputado federal. Santo Antônio foi instalado como município autônomo em 1912, com a criação da comarca e da prefeitura.

Em homenagem ao ex-governador, seu nome foi dado a uma vila ferroviária que pertencia a Santo Antônio. No entanto, posteriormente, a vila Generoso Ponce teve seu nome alterado para Jaci-Paraná — como era anteriormente chamada —, denominação que prevalece até os dias atuais. Hoje, há apenas uma rua em sua memória no velho distrito, que agora integra o município de Porto Velho. Santo Antônio foi extinto em 1945 e incorporado à atual capital de Rondônia.

DIFAMAÇÃO: Em plena “guerra” pela retomada da legalidade em Mato Grosso, em 1892, os inimigos de Floriano Peixoto tratavam de espalhar notícias não comprovadas acerca dos legalistas. Nessa rede contra a reputação dos políticos florianistas, não havia limites, e sobrou para Generoso Ponce. Um dos maiores jornais do Brasil, O Paiz, sediado no Rio de Janeiro, publicou em 4 de novembro de 1892: “Bandido e assassino, tendo envenenado o pai da mulher que raptou e com quem convivia, para lhe roubar a fortuna”.

O mesmo Ponce engendrou a marcha que matou o governador instituído legalmente, Totó Paes — um episódio emblemático que a historiografia oficial tenta apagar.

Sobre o autor

Júlio Olivar é jornalista e escritor, mora em Rondônia, tem livros publicados nos campos da biografia, história e poesia. É membro da Academia Rondoniense de Letras. Apaixonado pela Amazônia e pela memória nacional.

*O conteúdo é de responsabilidade do colunista

Com informações do Portal Amazônia.

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