Zico no futebol, Senna na F1: a relação do Japão com ídolos brasileiros

No futebol e na Fórmula 1, dois brasileiros criaram laços profundos com o Japão e se tornaram parte da cultura esportiva do país

29/06/2026 07:15 • Atualizado há 59 min

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Zico e Ayrton Senna no GP de Suzuka de 1993

TV Fuji/reprodução

O Japão tem uma relação particular com seus ídolos no esporte. A paixão aparece nas arquibancadas, nas faixas, nas fantasias, nas homenagens e na forma como atletas estrangeiros passam a fazer parte da cultura local. No futebol, esse lugar pertence a Zico. Na Fórmula 1, pertence a Ayrton Senna.

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Zico chegou ao Japão em 1991, pouco depois de deixar o Flamengo, e aceitou jogar pelo Sumitomo Metals, clube que viria a se tornar o Kashima Antlers. O futebol japonês ainda dava passos iniciais rumo ao profissionalismo, e a presença do brasileiro ajudou a mudar a mentalidade do esporte no país. A J.League surgiu nos anos 1990, e o Galinho virou uma referência para clubes, atletas e torcedores.

A ligação não acabou após a aposentadoria. Zico foi diretor técnico do Kashima entre 1996 e 2002, comandou a seleção japonesa de 2002 a 2006, disputou a Copa do Mundo da Alemanha no cargo e voltou à função de diretor técnico do clube em 2018. No estádio Ibaraki Kashima, há uma estátua em sua homenagem. É o retrato de um brasileiro que deixou de ser apenas visitante e passou a fazer parte da história local.

Na Fórmula 1, Ayrton Senna ocupou um espaço parecido. Se Zico ajudou o futebol japonês a entrar em outra fase, Senna ajudou a transformar a F1 em paixão nacional no país da Honda. A ligação entre o brasileiro, a montadora e o circuito de Suzuka criou uma das relações mais fortes entre um piloto estrangeiro e uma torcida fora de seu país.

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O Grande Prêmio do Japão entrou no Mundial de Fórmula 1 em 1976, em Fuji, em uma das provas mais dramáticas da categoria. A etapa ficou fora do calendário entre 1978 e 1986, mas retornou de forma definitiva. O Japão recebeu 13 decisões de campeonato e virou palco de alguns dos capítulos centrais da história da F1.

Suzuka ajudou a construir essa aura. A torcida também virou parte do evento. Fantasias, cartazes e mensagens de apoio transformam o fim de semana japonês em uma experiência diferente. Mas nenhum nome recebeu no Japão uma devoção comparável à de Senna.

Senna, Honda e Suzuka: uma história maior que a pista

Em1992, Ayrton Senna decidiu usar seu capacete para homenagear a empresa em sua última corrida no Japão com um motor Honda -Crédito: Senna

A relação começou antes dos títulos. A Honda havia entrado no mundo dos automóveis nos anos 1960 e venceu pela primeira vez na Fórmula 1 em 1965. Após a morte de Jo Schlesser em Rouen-les-Essarts, em 1968, a marca deixou a categoria por 15 anos. O retorno veio em 1983, primeiro como fornecedora de motores para equipes como Williams e Lotus.

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Foi na Lotus que Senna se aproximou da Honda. Em 1987, o brasileiro passou a correr com motores japoneses e teve como companheiro Satoru Nakajima. O piloto japonês ajudou a aproximar Senna do público local, mas a ligação mais forte nasceu dentro da própria Honda.

Akira Toryama e Ayrton Senna no GP da Alemanha de 1990 -Crédito: Reprodução

Em 1988, a relação ganhou outra dimensão. A McLaren fechou acordo com a Honda e formou uma das combinações mais vitoriosas da história da Fórmula 1. Senna passou a dividir a equipe com Alain Prost, seu maior rival. Entre 1988 e 1991, a McLaren-Honda venceu 35 corridas, ampliou a sequência de vitórias da Honda e marcou uma era.

O carro branco e vermelho da McLaren virou símbolo. A Honda passou a ter no brasileiro seu principal rosto fora do Japão. Senna, por sua vez, virou embaixador da Fórmula 1 dentro do país. Ele aparecia em comerciais da marca, tinha relação próxima com Soichiro Honda e recebeu um tipo de admiração raro para um atleta estrangeiro. Referências ao piloto surgiram em mangás, animes, programas de televisão e jogos.

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NSX ajuda a explicar o tamanho dessa relação

Ayrton Senna ajudou a Honda a criar um carro para bater a Ferrari

Divulgação/Auto Trader

Senna também se tornou parte de outro momento da indústria japonesa. No fim dos anos 1980, em meio à economia de bolha, o Japão vivia uma fase de avanço tecnológico no setor automotivo. A Honda, vista por muitos como uma fabricante menos tradicional entre as marcas japonesas, ganhou projeção com motores de F1, soluções como o VTEC e projetos como o NSX.

O NSX ajuda a explicar o tamanho dessa relação. Em fevereiro de 1989, a Honda apresentou o protótipo do esportivo, criado para desafiar a Ferrari. Senna foi convidado a avaliá-lo em Suzuka. O diagnóstico do brasileiro levou a Honda a rever o projeto.

Quando chegou ao mercado, em 1990, o NSX já carregava parte da visão de Senna. Na pista, Suzuka virou o centro da trajetória do brasileiro na Fórmula 1. Foi no Japão que Senna conquistou seus três títulos mundiais.

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Na pista, Suzuka virou o centro da trajetória do brasileiro na Fórmula 1

Em 1988, ele chegou ao GP do Japão em duelo direto com Prost. Largou mal, perdeu posições e precisou fazer uma corrida de recuperação. A chuva ajudou, o ritmo apareceu, e Senna venceu em Suzuka para conquistar seu primeiro título mundial. A imagem do brasileiro campeão no país da Honda consolidou a relação com o público japonês.

Prova foi marcada por batida entre companheiros de McLaren e decisão controversa

Crédito: @F1/Twitter

Em 1989, a disputa com Prost atingiu o ponto mais tenso. Senna precisava vencer no Japão e na Austrália para manter viva a chance do bicampeonato. Largou na pole, mas perdeu a liderança para o francês. Na volta 46, tentou a ultrapassagem na chicane após a 130R. Prost fechou a porta, as duas McLaren se tocaram e pararam.

Prost saiu do carro. Senna pediu ajuda aos fiscais, recebeu empurrão, voltou à pista, trocou a asa dianteira e perseguiu Alessandro Nannini. A cinco voltas do fim, passou o italiano na mesma chicane e cruzou a linha em primeiro, com 2s297 de vantagem. A vitória, porém, durou pouco. Após denúncia da Benetton, os comissários desclassificaram Senna por cortar a chicane e voltar pela área de escape.

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Ayrton Senna (McLaren) e Alain Prost (Ferrari) no GP do Japão 1990

Crédito -@F1/Twitter

O desfecho aumentou a carga simbólica de Suzuka. Em 1990, Prost já estava na Ferrari, e os dois voltaram ao Japão em nova decisão. Senna fez a pole por 0s232 sobre o rival, mas reclamou da posição do grid. Na largada, Prost pulou à frente. Na primeira curva, Senna entrou por dentro, os dois se tocaram e abandonaram. O acidente garantiu o bicampeonato do brasileiro.

Largada do Grande Prêmio do Japão de 1991

Crédito: @F1/X

Em 1991, Suzuka voltou a decidir o campeonato. Senna precisava impedir a vitória de Nigel Mansell, mas o rival da Williams errou a primeira curva e parou na caixa de brita. O brasileiro ficou com o tricampeonato e, já com o título assegurado, deixou Gerhard Berger vencer a prova.

No futebol, Zico ajudou a dar forma a um projeto esportivo japonês. Na Fórmula 1, Senna deu rosto, drama e emoção a uma fase em que o Japão queria provar sua força tecnológica ao mundo. Um virou estátua no Kashima. O outro virou personagem de mangá, rosto da Honda e parte da memória de Suzuka.

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Fonte: Band F1

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