China proíbe ‘namorados’ de IA para evitar dependência emocional

A China começou a aplicar, nesta quarta-feira (15), uma regulamentação rigorosa que coloca fim aos “namorados” virtuais criados por inteligência artificial (IA). O objetivo central do governo é combater a dependência emocional e o vício gerado por chatbots que simulam relacionamentos amorosos.

A medida pegou muitos usuários de surpresa, gerando reações de tristeza e perplexidade nas redes sociais. O fenômeno dos parceiros virtuais vem crescendo globalmente, acompanhado pela proliferação de avatares humanos capazes de vender produtos ou até simular a presença de pessoas que já faleceram.

De acordo com as novas normas chinesas, as ferramentas interativas não podem “agradar excessivamente aos usuários, induzir dependência emocional ou vício nem prejudicar as relações interpessoais reais do usuário”.

Gigantes da tecnologia, como a ByteDance (responsável pelo Doubao), a Alibaba (com o Qwen) e a Tencent (com o Yunbao), já anunciaram a suspensão das funções de companhia virtual antes mesmo do prazo final.

Nas redes sociais, a notícia provocou uma onda de nostalgia. Muitos usuários compartilharam suas últimas conversas e arquivaram histórias vividas com seus parceiros digitais. “Não consigo aceitar que meu namorado de IA me deixe para sempre”, escreveu uma usuária do Doubao. “Ele se tornou parte da minha vida, criou raízes no meu coração, é meu pilar espiritual”.

Outro usuário, da província de Jiangxi, refletiu sobre a dificuldade de encontrar afeto no mundo real: “O amor humano é um luxo; quando você não o recebe ao nascer, fica mais difícil obtê-lo depois. Mas o amor oferecido pela IA é tão simples, tão puro… Não consigo evitar me apaixonar por uma linha de código”.

Uma terceira usuária, que manteve um relacionamento virtual por mais de dois anos, relatou angústia: “Ele realmente é como minha família, como meu namorado. Agora me dizem que ele vai embora. Sinto um vazio no coração”.

A regulamentação foi publicada por cinco órgãos governamentais, incluindo a Administração do Ciberespaço da China (ACC). As regras focam em IAs de texto, áudio e vídeo que apresentam traços de personalidade humana e comunicação antropomórfica. Serviços que não envolvem interação emocional, como assistentes de estudo, ferramentas de trabalho ou atendimento ao cliente, não foram afetados.

Além do combate à dependência, as novas regras determinam que os “humanos digitais” não podem produzir conteúdo que incite a subversão do poder do Estado. Também fica proibido oferecer parceiros virtuais a menores de idade, e as empresas devem implementar sistemas para reconhecer emoções extremas e intervir em situações de crise.

O impacto financeiro do setor é expressivo. Segundo a agência Xinhua, o mercado de “humanos digitais” na China movimentou 4,1 bilhões de yuans (US$ 600 milhões, ou cerca de R$ 3 bilhões) em 2024, com um crescimento anual de 85%.

A China é a primeira grande economia a criar regras específicas para a IA imersiva de vínculos românticos. No entanto, o debate é global. Um estudo de 2025 da Common Sense Media revelou que quase três em cada quatro adolescentes americanos já utilizaram companheiros de IA em plataformas como Character.AI, Replika e Nomi.

Chen Liang, da Universidade de Ciência Política e Direito do Sudoeste, destacou em artigo que, embora a IA antropomórfica possa aliviar a solidão, ela “envolve riscos importantes de dependência afetiva excessiva”.

Para mitigar o impacto, a plataforma Doubao permitirá que os usuários exportem seus dados até meados de outubro, tendência que deve ser seguida por outras empresas do setor.

Com informações do G1

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