Instituto Benjamin Constant, um dos últimos locais de Manaus atingidos pela Gripe Espanhola. Foto: Reprodução/ Blog do Gustavo Maia Gomes
Manaus (AM) viveu um dos períodos mais trágicos de sua história entre 1918 e 1919, quando a gripe espanhola atingiu a capital amazonense com intensidade. A epidemia, que se espalhou pelo mundo após a Primeira Guerra Mundial, chegou ao Norte do Brasil em meio a uma crise econômica e social provocada pela decadência do ciclo da borracha.
A cidade, que na virada do século XIX havia experimentado prosperidade e modernização, enfrentava dificuldades financeiras, escassez de alimentos e carência de serviços públicos. Nesse cenário, a gripe espanhola encontrou terreno fértil para se propagar, provocando medo, desorganização e milhares de mortes.
De acordo com pesquisa realizada pela historiadora Rosineide de Melo Gama, a doença foi registrada nos jornais de Manaus com descrições que misturavam desespero, religiosidade e tentativas de explicação científica. As páginas dos periódicos locais, como A Imprensa, Gazeta da Tarde e Jornal do Commercio, noticiavam diariamente o avanço do contágio e o colapso dos serviços urbanos.
A epidemia, conhecida popularmente como “a Dansarina”, alterou profundamente o cotidiano da capital. Escolas, cinemas, igrejas e comércios foram fechados. As ruas ficaram desertas, enquanto hospitais e cemitérios não conseguiam atender à demanda por causa do grande número de mortos. Corpos se acumulavam em vias públicas e o medo da infecção era constante.
Em meio ao caos, as autoridades públicas adotaram medidas emergenciais, mas a estrutura sanitária da cidade era insuficiente. A falta de médicos, medicamentos e locais adequados para o isolamento agravou a situação. A população mais pobre, concentrada nos subúrbios, foi a mais atingida pela gripe espanhola.
O inimigo invisível e a cidade do medo

A gripe espanhola foi considerada pela imprensa da época como um “inimigo invisível” que atravessava fronteiras e se espalhava rapidamente. Em Manaus, a doença chegou pelo porto, trazida por navios que vinham do Pará e de outras regiões. Logo, os primeiros casos se multiplicaram e a capital passou a viver sob um clima de pânico.
Os jornais relatavam o colapso dos serviços públicos e o fechamento de repartições, enquanto o governo tentava conter o avanço do vírus com campanhas de desinfecção e uso de desinfetantes como creolina. As autoridades sanitárias recomendaram o uso de máscaras e a suspensão de aglomerações, mas a falta de informação dificultava a adesão da população às medidas preventivas.
Devido, ainda, à chegada de enfermos do interior do Estado e do território do Acre, reapareceram, depois, em Manaus, alguns casos e a 8 de março irrompeu a moléstia no Instituto Benjamin Constant, que permanecera imune até aquele momento. Foram atacadas 143 educandas e sete irmãs religiosas, sem registro de morte.
As farmácias e lojas da cidade aproveitaram o momento para divulgar produtos que prometiam imunidade ou cura. Entre os anúncios estavam “pastilhas Valda”, “ferro Bravais”, “rapé antisséptico” e “immunizantes da influenza”. As práticas de cura se dividiram entre a medicina científica, que tentava explicar a doença de forma racional, e os métodos populares baseados em chás, garrafadas e simpatias.
Segundo Gama, a imprensa teve papel decisivo na formação do imaginário coletivo sobre a gripe espanhola. O medo da morte, a busca por sentido diante da tragédia e a crença em punições divinas marcaram a experiência dos manauaras. Expressões como “hecatombe” e “fim dos tempos” eram usadas com frequência para descrever a gravidade da situação.
Epidemia, política e desigualdade
Além de um problema de saúde pública, a gripe espanhola também se tornou um tema político em Manaus. Grupos rivais utilizaram os jornais para culpar adversários e criticar a administração pública pela falta de medidas eficazes. A epidemia, portanto, foi usada como instrumento de disputa entre facções políticas.
A desigualdade social ficou evidente. Enquanto os bairros centrais receberam alguma atenção do poder público, as áreas periféricas permaneceram sem assistência. Nos subúrbios, famílias inteiras morreram sem atendimento médico. O número de mortos foi tão grande que muitos foram enterrados em valas comuns, e as autoridades recorreram a carroças para recolher os corpos.
Em meio à tragédia, surgiram iniciativas de solidariedade. Entidades civis, religiosos e voluntários prestaram auxílio aos enfermos e às famílias que perderam seus entes queridos. A Cruz Vermelha e a maçonaria tiveram participação importante na organização de socorros e distribuição de alimentos.
Com o passar dos meses, o vírus começou a perder força. Aos poucos, a cidade retomou suas atividades, mas o impacto da gripe espanhola permaneceu na memória coletiva. As festas do Carnaval de 1919 foram vistas como um momento de alívio após o período de luto e medo. Os jornais da época destacaram que “a alegria voltou, mas o rastro da morte ainda se fazia presente”.
O aprendizado sobre gripe espanhola
A epidemia de 1918 revelou a fragilidade das políticas públicas de saúde e o abismo social existente em Manaus no início do século XX. A cidade, que buscava aparentar modernidade, mostrou-se vulnerável diante de um surto que afetou ricos e pobres, mas atingiu com mais força os que viviam à margem da urbanização.
Estima-se que milhares de pessoas morreram em Manaus durante o período da gripe espanhola, embora não existam números oficiais exatos. A falta de registros e a precariedade das condições sanitárias dificultaram a contagem das vítimas.
O estudo de Rosineide de Melo Gama, desenvolvido na Universidade Federal do Amazonas, reconstitui essa fase esquecida da história local a partir da análise de jornais e documentos públicos. A pesquisa mostra que a gripe espanhola não foi apenas uma crise de saúde, mas um fenômeno que expôs contradições políticas, econômicas e culturais de uma cidade em transformação.
Mais de um século depois, o episódio ainda serve como referência para compreender o impacto das epidemias sobre a sociedade. A gripe espanhola deixou marcas profundas na história de Manaus e permanece como um dos capítulos mais sombrios da trajetória da capital amazonense.
Com informações do Portal Amazônia.