Viticultores gaúchos transformam a tragédia em esperança com vinhos especiais após as enchentes. A safra 2024 é um símbolo de resiliência
Após enfrentar a maior catástrofe ambiental da história do Rio Grande do Sul em 2024, os viticultores da Serra Gaúcha celebram um momento de alívio. A safra deste ano atingiu 905 mil toneladas – somando uvas de mesa e para a indústria – um volume considerado acima da média, de acordo com dados da Emater-RS.
A retomada não é apenas resultado do clima favorável, mas de um investimento em tecnologia e da persistência dos agricultores. Um exemplo notável é a história da família Argenta, de Barão (RS), que transformou a tragédia em um símbolo de resistência.
O produtor Arnaldo Argenta relata que sua propriedade sofreu com transbordamentos e enchentes por três anos consecutivos, entre 2023 e 2025. Em maio de 2024, a família perdeu toda a produção em fermentação e teve máquinas cobertas pela lama. O prejuízo acumulado chegou a R$ 1,5 milhão. Para seguir adiante, 180 garrafas soterradas foram limpas e vendidas como a “Edição Inundação”, acompanhadas de um poema sobre a força da terra e da água.
“A gente vai levar cinco anos para voltar ao estágio em que estávamos, mas a gente tem muita resiliência e vai conseguir”, afirma Arnaldo. Para reduzir os riscos impostos pelas mudanças climáticas, a aposta tem sido o sistema de cultivo coberto, que protege os frutos da chuva e reduz a ocorrência de doenças fúngicas, permitindo irrigação direta no solo. O custo de implantação, no entanto, é elevado, chegando a R$ 450 mil por hectare.
Além da proteção física, a pesquisa com novas variedades é fundamental. Em Santa Teresa, a família de João Paulo Berra mantém uma área experimental com 50 variedades de uvas europeias, como a Palava, da República Checa, que é precoce e ajuda a escalonar a colheita. A viticultura na Serra Gaúcha é um legado que remonta à chegada dos imigrantes italianos em 1875. Atualmente, cerca de 15 mil famílias cultivam uva no estado, com 90% da produção concentrada na região serrana.
Para muitos, como João Paulo Berra, a continuidade do trabalho é uma questão de tradição familiar. Mesmo trabalhando na cidade, ele retorna às origens durante a colheita para manter viva a tradição da quinta geração. “A viticultura não é só uma fonte de renda, é um legado. Passa de pai para filho”, resume João Paulo.
Com informações do G1