Carne brasileira na UE: disputa comercial ou risco sanitário?

UE veta carne brasileira sob alegação sanitária, mas decisão levanta suspeitas de protecionismo e atinge acordo Mercosul

A Comissão Europeia vetou as importações de carne e outros produtos de origem animal do Brasil, a partir de 3 de setembro de 2026, em uma decisão que abala a diplomacia comercial e levanta questionamentos sobre protecionismo. Bruxelas justifica a medida com base na saúde pública e no combate à resistência antimicrobiana (RAM).

Embora a UE alegue que o Brasil não cumpre as regras que exigem produtos totalmente livres de agentes antimicrobianos usados para engorda, a decisão ocorre em um momento delicado, após a assinatura do acordo com o Mercosul, e beneficia o setor agrário europeu. A disparidade no tratamento entre o Brasil e seus parceiros do Mercosul – Argentina, Paraguai e Uruguai – que permanecem autorizados a exportar, reforça as suspeitas de que a medida seja uma barreira técnica direcionada ao maior exportador.

O governo brasileiro defende que possui um sistema sanitário internacionalmente reconhecido, com 40 anos de experiência exportadora para o bloco europeu. No entanto, a UE questiona a robustez do sistema de rastreabilidade brasileiro. Para o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, a decisão é uma “bofetada política”, considerando o esforço investido para fechar o acordo Mercosul-UE.

As perdas com o veto podem ser significativas. Em 2025, o Brasil exportou para a UE mais de 370.000 toneladas de carne bovina, gerando uma receita de 1,8 bilhão de dólares. A suspensão das importações também pode impactar os preços para o consumidor europeu, já que a oferta de proteína animal diminuirá. A Comissão Europeia estaria, portanto, sacrificando o poder de compra de seus cidadãos para proteger os interesses do setor agrícola local.

O Brasil não aceitou a decisão passivamente e anunciou que apresentará seus argumentos técnicos para reverter a medida. A legalidade do acordo Mercosul-UE e seus protocolos será analisada pelo Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE). Caso o Brasil prove a equivalência de seu sistema sanitário ao europeu, a medida poderá ser considerada uma barreira comercial arbitrária perante a Organização Mundial do Comércio (OMC).

A decisão da UE é vista como uma moeda de troca para acalmar o lobby agrário europeu, que tem protestado contra a concorrência de países com menores custos de produção. Brasília agora precisa transformar a retórica em provas técnicas, enquanto a UE deverá justificar por que padrões aplicados ao Brasil não são igualmente exigidos de outros fornecedores globais.

Com informações do G1

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