Jovens no Japão pagam empresas para pedir demissão e evitar conflitos

Para Y.M., um jovem japonês de pouco mais de 20 anos, a primeira experiência profissional após a faculdade em uma imobiliária tornou-se um desafio diário de resistência. No ambiente de trabalho, ele era frequentemente o alvo de gritos e críticas severas.

De acordo com informações divulgadas pelo site da Leadbrain, consultoria de recursos humanos e trabalhista de Tóquio, Y.M. buscava um modo discreto de encerrar seu vínculo empregatício.

Com receio do julgamento dos colegas, evitando preocupar a família e decidido a não gerar conflitos internos, ele utilizou o celular para encontrar uma solução: a contratação de um serviço terceirizado de demissão, que notifica o empregador sobre o desligamento em nome do trabalhador.

No Japão, o ato de abandonar o posto de trabalho sem qualquer aviso prévio é denominado bakkure, prática que possui similaridades com o “ghosting” observado em relacionamentos afetivos.

Enquanto em diversas nações a saída de um emprego sem comunicação é interpretada como irresponsabilidade, na lógica das interações sociais japonesas, desaparecer pode ser um mecanismo para evitar embates e manter a aparência de harmonia.

A demanda por empresas que fazem a intermediação de pedidos de demissão está em ascensão. A Albatross, uma das referências no segmento, auxilia mensalmente cerca de 450 pessoas a deixarem seus cargos sem a necessidade de contato direto com os gestores.

O custo do serviço é de aproximadamente 120 euros (cerca de R$ 713,00) para quem atua em regime de tempo integral. O público majoritário é composto por jovens dos setores de manufatura e serviços, e o trâmite pode ser finalizado em até 15 minutos.

“As razões que levam as pessoas a pedir que nos encarreguemos da demissão vão de violência física a assédio sexual”, afirmou Yuka Hamada, diretora-executiva da Albatross. “São pessoas vulneráveis e que não se sentem capazes de pedir demissão por conta própria.”

Dados de uma pesquisa da consultoria Shikigaku com trabalhadores entre 20 e 49 anos indicam que aproximadamente um terço dos entrevistados já sofreu algum tipo de assédio no trabalho.

A cultura corporativa tradicional do Japão, consolidada durante a expansão econômica do pós-guerra, está ligada ao conceito de emprego vitalício. Nesse cenário, a lealdade à organização é vista como virtude, e gestores podem encarar a demissão como uma ofensa pessoal, fazendo com que jovens hesitem em comunicar a saída.

“Anunciar a intenção de pedir demissão pode parecer não apenas o encerramento de um contrato, mas também uma forma de decepcionar pessoas ou trair expectativas que se buscou atender durante anos”, afirmou Hiroki Nakamori, professor associado da Universidade Rikkyo.

Hiroshi Ono, professor de gestão de recursos humanos da Universidade Hitotsubashi, explica que a sociedade japonesa evita confrontos e espera que o indivíduo se adapte à cultura organizacional. “Quem perturba a harmonia não costuma ser bem-visto. Por isso, alguém que está saindo pode sentir que o melhor é simplesmente desaparecer sem causar alarde”, disse Ono. “Agir coletivamente e em harmonia é considerado um sinal de força”, acrescentou.

Essa aversão a conflitos tem raízes históricas, como na Constituição dos Dezessete Artigos do século 7, que já priorizava a harmonia e a prevenção de disputas.

Mesmo ao sair, busca-se a cortesia. “Os clientes podem não se despedir nem agradecer diretamente à empresa. Nesses casos, a agência pode transmitir essas mensagens em seu nome”, afirmou Hamada.

Isso reflete o paradoxo da cultura corporativa local. Mesmo ao optar pelo desaparecimento, muitos seguem o princípio do meiwaku, que visa minimizar transtornos a terceiros e preservar a ordem coletiva. A orientação inclui até a organização do espaço físico: “Mesmo quando o cliente pretende desaparecer completamente, orientamos que esvazie sua mesa antes de sair”, concluiu Hamada.

Com informações do G1

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